Seja muito bem-vindo(a) à segunda edição de Decifrando o Marketing Musical, a newsletter que toda quarta-feira te entrega conceitos, estratégias e histórias de sucesso do marketing musical para você aplicar com inteligência na sua carreira.
Na semana passada falamos sobre o conceito de marketing musical, e um dos principais aprendizados é a importância de desenvolver um plano com um objetivo claro, estratégia, táticas e ações. Depois de desenvolver o objetivo, vamos partir para a estratégia, e é aí que entra o branding.
Neste texto, vamos abordar o conceito, a importância e os 3 pilares essenciais do branding artístico para desenvolver sua marca como artista ou banda e, por fim, um resumão com insights acionáveis que você pode aplicar imediatamente na sua carreira ou de quem você está gerindo. E preparei umas dicas extras no final que você vai querer salvar!
Agora vamos ao tema do dia!
O que é branding artístico?
Branding é o processo de construir e gerenciar a percepção da sua marca. Para um artista, é como sua música, imagem, história e comunicação se unem para criar uma identidade única, memorável e capaz de gerar conexão emocional profunda com o público. Um fã não cola um pôster no quarto (ou na tela do telefone) só porque gosta da música, mas sim por tudo que o artista representa.
Com o avanço das IAs gerando conteúdo desenfreado e a disputa insana pela atenção nas redes sociais, ter um branding forte virou questão de sobrevivência. É o que vai te fazer ser lembrado no meio deste tsunami de conteúdo e novos artistas.
Além disso, um posicionamento claro na mente da audiência funciona como blindagem contra contradições, fundamental nesta era do cancelamento. Pense no Marcelo D2: ele circula tranquilamente entre samba, rock, hip hop e jazz sem soar, para grande parte das pessoas, como "oportunista" ou que está só seguindo tendência. Como? Ele sempre preparou o terreno antes de divulgar seus experimentos.
A consistência do branding faz com que mudanças e experimentações façam sentido para o público e, principalmente, para os super fãs. Quando sua essência está clara, você pode explorar diferentes sonoridades porque o público entende que aquilo faz parte do seu DNA artístico.
Um branding bem construído é permissão para experimentar sem perder identidade.
Os 3 Pilares Essenciais do Branding Artístico
Pilar 1: A Fundação - Autoconhecimento e Posicionamento
Este é o pilar mais importante, pois é o ponto de partida para qualquer estratégia de branding. O brand foundation é a "cozinha" de uma banda, que será a base de toda a construção da marca.
Desenvolva sua fundação:
Defina seu propósito: Por que você faz música além da paixão e de gerar renda? (Ex: "empoderar pessoas a serem elas mesmas")
Estabeleça seu posicionamento: É o "onde" a marca se encaixa na mente do público e como se diferencia dos demais (Ex: Chico Science e Nação Zumbi, "a banda que mistura rock com ritmos regionais e faz críticas sociais")
Identifique seus valores, missão e visão (Missão - "Criar música que conecta pessoas"; Visão - "Ser reconhecido como artista transformador"; Valores - cuidado, diversidade, inovação)
Analise o cenário: Busque inspiração e lacunas dos artistas do seu gênero; mapeie seu público-alvo
Desenvolva seu storytelling: Como contar a sua história
O storytelling é a espinha dorsal do seu branding. É como você estrutura e conta sua trajetória de forma que o público se conecte emocionalmente. É a vida imitando a arte e a arte imitando a vida.
Use os 7 Plots de Christopher Booker para contar a sua história:
Superando o monstro: Enfrenta adversidades e sai vitorioso (Elza Soares superou pobreza e racismo; Kendrick Lamar transformou Compton em arte premiada)
Do zero ao herói: Jornada de ascensão inspiradora (Ed Sheeran de apresentações de rua a estádios; Anitta do subúrbio do RJ a artista global)
A busca: Missão que guia a carreira (Marcelo D2 "à procura da batida perfeita"; Manu Chao levando mensagens sociais pelo mundo)
Viagem e retorno: Experimentação e volta às raízes (Bad Bunny explora fronteiras mas volta ao reggaeton; Caetano experimentou no exílio mas retornou à MPB)
Comédia: Humor como identidade (Mamonas Assassinas com rock satírico; Letrux com irreverência e ironia no indie pop)
Tragédia: Narrativas sombrias (Luiz Gonzaga e a melancolia do sertão nordestino; Johnny Cash explorando melancolia nos últimos anos)
Renascimento: Reinvenção artística (Miley Cyrus de teen Disney a artista versátil; Vinicius de Moraes da diplomacia à bossa nova)
Desenvolva seu personagem: Os arquétipos
Baseados na teoria do psicólogo Carl Jung, os arquétipos são personalidades que as pessoas reconhecem instintivamente. Escolher um arquétipo ajuda a humanizar sua marca e criar conexão emocional profunda com seu público.
Escolha qual arquétipo representa melhor sua essência (no máximo 2):
O Rebelde: Desafia convenções (Rita Lee, Rage Against The Machine)
O Mago: Cria experiências transformadoras (David Bowie, Daft Punk)
O Herói: Hinos de superação (Gloria Groove, Beyoncé)
O Amante: Sensualidade e paixão (Rihanna, Usher, Luisa Sonza)
O Sábio: Crítico social reflexivo (Kendrick Lamar, Criolo)
O Cara Comum: Cotidiano relatável (Ed Sheeran, Marília Mendonça)
O Inocente: Otimismo e simplicidade (Katy Perry no início, Melim)
O Explorador: Sempre experimentando (Caetano Veloso, Marcelo D2)
O Cuidador: Proteção e esperança (Michael Jackson, Gilberto Gil)
O Criador: Inovação constante (Tyler, The Creator, Rosalía)
O Governante: Controle e liderança (Jay-Z, Anitta)
O Bobo da Corte: Diversão e irreverência (Pabllo Vittar, Tyler, The Creator)
Pilar 2: Identidade Visual e Verbal
Se o propósito é a alma da marca, a identidade é seu corpo e voz. Aqui você transforma toda a estratégia em elementos concretos.
Identidade de marca: São os elementos visuais e verbais que representam a marca. Isso inclui nome, logo, paleta de cores, tipografia, slogan e estilo visual. Para um artista, também incluem a capa do álbum, o design das redes sociais, o estilo de roupas e a forma de se comunicar publicamente.
Personalidade da Marca: Reflete a voz e o tom da comunicação. Baseada nos arquétipos de marca, que vamos aprofundar em breve, pode ser a de um "Rebelde", "Sábio" ou "Amante". Determina se a marca se comunica de maneira formal, descontraída, bem-humorada ou poética.
Ações práticas:
Desenvolva elementos visuais coerentes
Defina seu brand voice (tom, linguagem, atitude)
Crie um storytelling consistente para todos os pontos de contato
Tendência atual: Build in Public - compartilhe seu processo criativo em tempo real
Pilar 3: Experiência e Implementação Consistente
Esse pilar garante que a promessa da marca seja cumprida em todos os pontos de contato. Branding é trabalho constante, não algo pontual.
Pontos de Contato e Experiência: É a soma de todas as interações que o público tem com a marca. Desde a primeira vez que ouve uma música, até a experiência no show, a compra de um produto ou a interação nas redes sociais. Para artistas, é crucial criar uma "atmosfera" reconhecível. Por exemplo, The Weeknd mantém uma atmosfera noturna e misteriosa em tudo: capas escuras, shows com iluminação específica e até suas redes sociais seguem essa vibe.
Consistência: É a repetição da mensagem e da identidade em todos os canais. Se a marca de um artista é otimista e colorida, todas as suas postagens, músicas e visuais devem refletir isso para que a marca seja percebida como autêntica.
Ações práticas:
Aplique consistentemente em redes sociais, biografias, releases
Monitore a percepção do público
Ajuste quando necessário, mantendo a essência
Resumão
O branding artístico é o processo estratégico de construir e gerenciar como você é percebido pelo público. Baseia-se em três pilares: fundação (propósito e posicionamento), identidade (elementos visuais e personalidade) e experiência (pontos de contato e consistência).
O desenvolvimento segue três passos sequenciais: autoconhecimento profundo (definindo valores, storytelling e arquétipo), criação de identidade visual e verbal coerente, e implementação consistente.
A consistência deve estar nos valores e na mensagem, permitindo que a estética evolua junto com a arte e a vida do artista. Branding não é estático, é uma base sólida para experimentar com segurança.
Passando do ponto: Dicas acionáveis
1. Monte seu Moodboard de Branding: Antes de contratar pessoas, faça sua lição de casa. Pinterest, Canva, Miro ou até mesmo um board no Instagram. Reúna tudo que te inspira: cores, tipografias, fotos, capas de álbuns, looks de shows. Esse painel vai ser seu norte visual para tudo: posts, fotos de divulgação, capas de singles. É como ter um mapa para todas suas decisões visuais.
2. Teste do Elevador: Se você cruzar com um produtor no elevador, consegue explicar quem você é em 30 segundos? Exemplo: "Eu faço pop alternativo com letras sobre ansiedade da geração Z, misturando sonoridades brasileiras". Se não consegue, seu branding ainda está confuso. A clareza é fundamental.
3. Faça uma Auditoria da sua Presença Online: Reserve 20 minutos e passe por todas suas plataformas: Instagram, Spotify, YouTube, TikTok. Sua bio está consistente? As cores combinam? O tom de voz é o mesmo? Pode ser mais descontraído no Instagram e formal no Spotify, mas a essência tem que ser reconhecível. Inconsistência prejudica o branding.
4. Transforme Lançamento em História: Pare de apenas lançar música. Conte a história: o que te inspirou? Onde você gravou? Que sentimento você quer transmitir? Use essa narrativa na divulgação toda. O público se conecta com histórias, não com produtos. É a diferença entre "nova música disponível" e "a música que me salvou em 2024".
5. Parcerias Estratégicas que Fazem Sentido: Se você é do arquétipo Explorador, colabore com quem também experimenta. Se é Rebelde, busque marcas independentes ou causas em que você acredita. Parceria aleatória só por visibilidade não funciona mais. O público percebe quando é forçado versus quando faz sentido com quem você é.
E parabéns por ter chegado até aqui!
É muita informação, mas sem dúvida um conteúdo essencial para quem quer levar o marketing musical a sério. Muitas vezes, na correria dos projetos, esquecemos do básico, e revisar esses conceitos pode fazer toda a diferença na prática.
Na próxima edição, vamos falar sobre Funil de Marketing Musical: como guiar seu público da descoberta até se tornar super fã.
E você, concorda com a minha abordagem de marketing musical? Discorda de algo ou quer complementar com a sua experiência? Responde este e-mail e vamos continuar a conversa!
Quer se aprofundar nas estratégias de branding musical? Trabalhamos nos três pilares de desenvolvimento e aplicação do branding para artistas que querem iniciar ou afinar seu posicionamento. Para quem busca algo mais pontual, fazemos consultoria de 1 a 2 sessões. Também atuamos com desenvolvimento estratégico de campanhas, gestão de tráfego pago e social media para artistas e marcas que querem dar um boom nos resultados.
Quem vos fala: Vinícius Pinho, formado em Marketing e Publicidade com especialização em Music Business, mais de 6 anos de experiência em Marketing Digital e co-fundador da Vemus Lab, agência-produtora que atua como motor criativo e promocional para artistas, gravadoras e marcas do entretenimento.
Se você está pronto para dar esse próximo passo, vamos conversar. Pode agendar uma sessão estratégica direto pelo meu calendário ou me chama no Whatsapp!
Fontes, Referências e Indicação de leitura:
Sobre Storytelling:
"The Seven Basic Plots: Why We Tell Stories" de Christopher Booker (2004) - análise dos sete enredos básicos que estruturam todas as narrativas
Sobre Arquétipos de Marca:
Teoria dos Arquétipos de Carl Jung - psicólogo suíço que desenvolveu a teoria dos arquétipos aplicada posteriormente ao branding
Sobre Branding e Estratégia:
"Building a StoryBrand" de Donald Miller - usa a estrutura de histórias para criar mensagens de marca
"Designing Brand Identity" de Alina Wheeler - guia essencial para a criação de identidade de marca
"Branding in Five and a Half Steps" de Michael Johnson - processo direto para o branding
"Positioning: The Battle for Your Mind" de Al Ries e Jack Trout - estratégia para se destacar na mente do consumidor